Autor
Maria Cristina Vasconcellos
Psicanalista, Membro Efetivo, Analista Didata da SPPA
Formação psicanalítica - a construção de um espaço para a criatividade

A formação é o desenvolvimento de um espaço interno para transitarmos com liberdade, permitindo que possamos brincar, sofrer e transformar a nós mesmos
Algumas vezes escutei, e seguramente também deve ter acontecido com todo psicanalista, o quão tedioso seria passar o dia ouvindo pessoas falarem de suas vidas, de seus sofrimentos. Entretanto, se existe um sentimento que raramente aparece em uma sala de análise é o tédio. Quando ele surge, é sinal de que está ocorrendo algo que ainda não tivemos oportunidade de compreender. Em geral, transitamos em outro mundo, diferente daquele que pareceria tedioso aos nossos sentidos. Costumamos nos afastar do mundo real, e a escuta se volta para palavras ou gestos que nos surpreendem em um discurso que parece ser sempre o mesmo. Encontramos o diferente mediante uma escuta que se volta para o não dito, mas que, mesmo assim, se faz presente. Se há algo que não é tedioso nem repetitivo é a riqueza que tal encontro pode oferecer. Saímos das fronteiras do mundo real para um outro que, quando se estabelece de forma criativa, estará sempre em expansão.
Como ocorre com qualquer explorador de novos mundos, a jornada requer a aquisição de habilidades e de instrumentos, pois sabemos de onde partimos, tendo ideia dos caminhos a percorrer, mas precisamos estar aparelhados para adentrar territórios inóspitos, às vezes assustadores, com a segurança de podermos voltar. O tripé da formação psicanalítica — análise pessoal do analista, supervisão e seminários teóricos — tem por objetivo oferecer os elementos básicos para o início dessa trajetória que vai sendo construída ao longo da vida de cada psicanalista. A exploração que vamos fazer exige delicadeza e sensibilidade, não só com o analisando, mas com o adentrar em nosso próprio mundo interno, instrumento essencial para o trabalho psicanalítico.
Como os artesãos do passado, que aprendiam seu ofício diretamente dos mais experientes, seguimos construindo o nosso instrumental por meio de encontros pessoais, aprendendo a ver as sutilezas que o olho desavisado não percebe. É um aprendizado lento, delicado, o qual inclui o crescimento pessoal para além do conhecimento de teorias. A partir dessa perspectiva, a formação é justamente o desenvolvimento de um espaço interno para transitarmos com liberdade, permitindo que possamos brincar, sofrer e transformar a nós mesmos. É assim que poderemos usar esse espaço para favorecer o crescimento do outro, que nos procura para uma parceria capaz de permitir a descoberta de novos caminhos dentro de si. Em tempos de vazio e de desencontros como os que temos vivido, não seria esse encontro a oferta de um espaço de criatividade?