Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre (SPPA)

ANO 24 • • Nº 46

ÓRGÃO OFICIAL DA SOCIEDADE PSICANALÍTICA DE PORTO ALEGRE

Porto Alegre | RS

Paris, Texas – A travessia de uma família

  • Filme de Win Wenders convida à reflexão sobre o amor e a parentalidade para além do ideal de completude e do egoísmo

A reestreia nos cinemas brasileiros do clássico filme Paris, Texas de Wim Wenders (1984), cujo relançamento é uma homenagem aos 80 anos do Diretor, oferece ao Comitê de Psicoterapia Psicanalítica de Casal e Família da SPPA a oportunidade de revisitar uma obra que, ao longo do tempo, mantém uma atualidade singular na forma como aborda as dinâmicas de um casal e da sua família.

A narrativa acompanha Travis, um homem que retorna à sua cidade após quatro anos de desaparecimento, sendo encontrado exausto e sem memória. Aos poucos, ele passa a relembrar sua vida, sendo acolhido pelo irmão e pela cunhada. Reencontra o filho pequeno, Hunter, e faz um esforço para se reaproximar dele. Gradualmente, restabelece uma relação com o menino e conquista sua amizade e confiança. Parte, então, em busca da ex-esposa, mãe de Hunter.

Sua trajetória é marcada pelo silêncio e pela tentativa de dar algum sentido ao que fora desfeito. O deserto do Texas, por onde ele caminhava logo no início do filme, parece espelhar um estado interno: uma paisagem árida, mas na qual ainda é possível encontrar um ponto de partida. O filho, durante a ausência dos pais, fora acolhido pelo casal de tios, os quais exerceram a parentalidade com cuidado e responsabilidade, sem apagar a presença dos pais biológicos.

Há um aprendizado mútuo no convívio entre pai e filho: o menino precisa reconhecer aquele homem como pai, enquanto Travis deve suportar o tempo necessário para que a confiança e o apego se restabeleçam. O vínculo é construído em pequenos movimentos, com hesitação, interesse, cuidado e alguma ternura.

Jane, a mãe, aparece mais adiante. Sua ausência, sentida desde o início pelas personagens e pelos espectadores do filme, ganha contornos mais humanos quando ela é reencontrada. Seu afastamento não ocorrera por indiferença, mas pela necessidade de interromper o relacionamento de casal, que se tornara destrutivo. Quando Travis a procura, não é para retomarem a vida como um casal, mas para possibilitar a reconstrução do vínculo materno com o filho. O gesto final de Travis — favorecer o reencontro entre mãe e filho e seguir seu caminho — expressa uma forma de reparação. Ele reconhece os próprios limites e realiza, talvez pela primeira vez, um ato que considera as necessidades do outro, um ato empático e no interesse da família, da mãe e do filho.

Paris, Texas convida à reflexão sobre o amor e a parentalidade para além do ideal de completude e do egoísmo. O filme mostra que o amadurecimento de uma família pode se dar não apenas pela unidade, mas pela capacidade de sustentar as separações necessárias. O deserto, metáfora central da obra, deixa de representar apenas o vazio, passando a simbolizar o espaço onde algo novo pode nascer — menos idealizado, e, até por isso, mais verdadeiro.