Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre (SPPA)

ANO 24 • • Nº 46

ÓRGÃO OFICIAL DA SOCIEDADE PSICANALÍTICA DE PORTO ALEGRE

Porto Alegre | RS

Autora

Cátia Olivier Mello

Psicanalista de crianças, adolescentes e adultos IPA, membro efetivo da SPPA

Criatividade como medida de tempo

  • A contemporaneidade trouxe alterações de tempo e espaço, assim como inconstância e polarização de opiniões, de intolerância entre nós.

Falta de tempo, tempo acelerado, tempos bicudos, tempo real: o nosso modo de registrar os acontecimentos na contemporaneidade precisa definitivamente mudar. O relógio, as estações do ano, os dias e as noites – o tempo cronológico – já não são mais tão suficientes como organizadores para nossas vidas como outrora foram...

Acostumamo-nos a dizer que vivemos tempos caóticos, e com isso queremos dizer confusos, desordenados, sem uma direção identificável. Curioso é que, para a mitologia de Hesíodo, Chaos (a mais antiga forma de divindade) era definida como o abismo, o vazio sem fim, mas não era confusa. Seus filhos eram a noite (Nix), a escuridão (Érebo), a terra (Gaia), o mundo inferior (Tártaro) e o amor (Eros). Esses pedaços soltos de Chaos não estavam confundidos nem desordenados no universo e formavam o cosmos, o mundo ordenado como conhecemos hoje.

A contemporaneidade trouxe alterações de tempo e espaço, assim como inconstância e polarização de opiniões, de intolerância entre nós. Como viver desse modo desordenado? Como imprimir um ritmo de vida constante e confiável para nossas crianças? É comum pensar que, em tempos de crise, precisamos ser criativos, mas por que associamos caos e criatividade?

Aprendemos com o psicanalista Winnicott que a criatividade é algo comum aos seres humanos, diferente do talento artístico. É a condição que a criança comum tem de se imaginar vivaz o suficiente para criar um mundo imaginativo e desfrutar dele, sendo que esta capacidade deriva de não ter tido a sua espontaneidade aniquilada sistematicamente pela submissão quando pequena. Na mesma linha de pensamento, a psicanalista Piera Aulagnier considera o encontro criativo e único entre o bebê e seu cuidador como a matriz do desenvolvimento, já que cuidador e bebê criam um ao outro diariamente, a cada encontro.

A alegria e o prazer advindos de aproveitar um momento de satisfação criativa na companhia de outra pessoa que não nos julgue é tão importante que marca a vida de qualquer um, transformando a sensação de caos porque confere significado àquele momento. É o chamado tempo de Kairós - o tempo do sentido -, quando temos a certeza de ter participado de algo criado, novo.

Assim, é possível que a contemporaneidade nos ofereça uma oportunidade nova de compreender e experimentar o mundo, na qual a criatividade comum seja a ferramenta para transformar o caos e registrar o tempo com experiências criadoras de sentido e, oxalá, divertidas.