Autora
Candice Pasqualin de Campos
Psiquiatra, psicanalista, membro associado da SPPA
Inquietações da era pós-narrativa

Quem já não presenciou a cena de adolescentes sentados em grupo, cada um capturado pela tela do próprio celular?
Quando a equipe editorial do Jornal da SPPA me convidou a escrever, comentaram-me que algumas pessoas eram estudiosas do tema e outras, inquietas. Incluo-me no segundo grupo: inquieta por ser humana e psicanalista, mas principalmente por ser mãe de adolescente em tempos de virtualidades.
Entre os múltiplos vértices possíveis de reflexão para esse pequeno texto, optei por leituras e narrativas.
Lendo o livro de Afonso Cruz, "O vício dos livros", passo pela frase:
“Os livros que lemos construíam-nos, constroem-nos, construir-nos-ão”.
Paro, volto. Aquilo que parece uma obviedade me faz refletir: e sem livros? O hábito de leitura dos meus filhos, prazeroso e solidamente constituído desde antes da alfabetização, vem sendo abalado pelo consumo de vídeos breves e hipnotizantes.
Roland Barthes, no texto "Escrever a Leitura", fala sobre “o leitor que levanta a cabeça”, não por distração, mas por surgimento de ideias, associações e excitações. Ou seja, o leitor que reflete. O leitor que tem a capacidade de manter a atenção focada por longo tempo, que imagina e cria enquanto lê. A leitura complexifica, enriquece, transforma.
Perde-se cada vez mais a paciência para ler, ouvir e narrar. Até as conversas entre amigos são entremeadas pelo virtual: quem já não presenciou a cena de adolescentes sentados em grupo, cada um capturado pela tela do próprio celular?
Byung-Chul Han, no livro "A crise da narrativa", descreve a era da pós-narrativa, falando sobre essa perda como um empobrecimento da transmissão da experiência da boca ao ouvido. A escassez da narrativa provoca a míngua da sabedoria transmitida entre gerações. A passagem das rodas de conversa para a tela individualiza e isola.
Ele afirma que a substituição da narrativa pelo storytelling deixa um vazio de sentido, sem poder de vinculação, além de gerar desorientação. Sugere que os stories nas redes sociais sejam autopromoções pornográficas ou anúncios capazes de intensificar a crise narrativa.
Como os nossos filhos (e nós!) navegaremos pela era da pós-narrativa? Pretendo que seja remando contra a correnteza. Vivendo a experiência humana e a escuta atenta que a psicanálise proporciona, assim como exercitando a narrativa, ofício nosso de cada dia. A arte salva; a psicanálise também.