Autor
Ruggero Levy
Psicanalista, Membro Efetivo e Analista Didata da SPPA
Adolescência, virtualidade e a toxicidade das mídias sociais

A solidão foi substituída pela “inclusão” espúria em comunidades manipuladas por influencers sádicos, misóginos, muitas vezes perversos
É necessário saudar a iniciativa do Jornal da SPPA ao se ocupar do tema da virtualidade, tão onipresente na vida atual em nossa cultura. O seriado Adolescência trouxe o enorme benefício de alertar em escala pública quanto à toxicidade das mídias sociais na mente adolescente nos dias de hoje.
É importante reafirmar que não se trata de ser contra essas tecnologias, que podem ser de enorme utilidade, mas de utilizá-las de modo saudável.
Em 2002 escrevi: “As relações virtuais privam o sujeito do olhar do outro de onde se origina o sentimento de existir, de ser real, de ser verdadeiro, sendo possível que desperte sentimentos de irrealidade e de vazio existencial”.
Naquele momento, antes da criação dos smartphones e com mídias sociais ainda limitadas, a preocupação era com a perda do contato humano, “olho a olho”, “epidérmico”, e suas consequências na subjetividade do sujeito, principalmente o adolescente, provocando sentimentos de solidão, vazio e irrealidade.
Depois, em 2006 e 2008, a preocupação era com a banalização do sexo e da violência na internet, pois bastava um clique para que a pornografia e os sites de extrema agressividade entrassem no quarto do adolescente.
Na época, destaquei que a enorme prevalência de relações virtuais fazia com que o outro sujeito, virtual, fosse “digitalizado”, levando a uma perda de empatia com o sofrimento alheio em virtude da desumanização do outro.
Escrevi, então, um artigo que se chamava “Em defesa de um certo pudor necessário à imaginação”, pois era evidente que o excesso de exposição dos e das adolescentes em cenas de nudez e de masturbação estava levando à substituição das fantasias pelas atuações sexuais promíscuas, assim como ao uso maciço de drogas.
Entretanto, o problema maior passou a acontecer depois de 2010 com o advento dos smartphones, quando os adolescentes e até crianças – bem como os adultos – passaram a carregar a internet e as mídias sociais “no bolso”.
Estavam criadas as condições para estimular as adições à tecnologia e a dependência narcísica de receber likes e ser “olhado” pelo outro. Os mais frágeis, identificados e conduzidos pelos algoritmos, sucumbiram em razão de suas falhas narcísicas, passando a buscar o “amor” e a inclusão em comunidades virtuais extremamente tóxicas e perigosas.
A solidão foi substituída pela “inclusão” espúria em comunidades manipuladas por influencers sádicos, misóginos, muitas vezes perversos, racistas, antissemitas, induzindo jovens a atos violentos.
A violência, seja contra si mesmo ou contra o outro, aumentou exponencialmente. Temos assistido a uma verdadeira epidemia de automutilações, cyberbullying, atos infracionais, suicídios e depressões graves em adolescentes.
Conhecer esse novo mundo virtual por onde os adolescentes andaram sós durante muitos anos, expostos ao submundo, é importante não para se alarmar, mas para tomar medidas efetivas de cuidado e proteção com os nossos jovens.