Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre (SPPA)

ANO 24 • • Nº 45

ÓRGÃO OFICIAL DA SOCIEDADE PSICANALÍTICA DE PORTO ALEGRE

Porto Alegre | RS

Autor

Ruggero Levy

Psicanalista, Membro Efetivo e Analista Didata da SPPA

Adolescência, virtualidade e a toxicidade das mídias sociais

  • A solidão foi substituída pela “inclusão” espúria em comunidades manipuladas por influencers sádicos, misóginos, muitas vezes perversos

É necessário saudar a iniciativa do Jornal da SPPA ao se ocupar do tema da virtualidade, tão onipresente na vida atual em nossa cultura. O seriado Adolescência trouxe o enorme benefício de alertar em escala pública quanto à toxicidade das mídias sociais na mente adolescente nos dias de hoje.

É importante reafirmar que não se trata de ser contra essas tecnologias, que podem ser de enorme utilidade, mas de utilizá-las de modo saudável.

Em 2002 escrevi: “As relações virtuais privam o sujeito do olhar do outro de onde se origina o sentimento de existir, de ser real, de ser verdadeiro, sendo possível que desperte sentimentos de irrealidade e de vazio existencial”.

Naquele momento, antes da criação dos smartphones e com mídias sociais ainda limitadas, a preocupação era com a perda do contato humano, “olho a olho”, “epidérmico”, e suas consequências na subjetividade do sujeito, principalmente o adolescente, provocando sentimentos de solidão, vazio e irrealidade.

Depois, em 2006 e 2008, a preocupação era com a banalização do sexo e da violência na internet, pois bastava um clique para que a pornografia e os sites de extrema agressividade entrassem no quarto do adolescente.

Na época, destaquei que a enorme prevalência de relações virtuais fazia com que o outro sujeito, virtual, fosse “digitalizado”, levando a uma perda de empatia com o sofrimento alheio em virtude da desumanização do outro.

Escrevi, então, um artigo que se chamava “Em defesa de um certo pudor necessário à imaginação”, pois era evidente que o excesso de exposição dos e das adolescentes em cenas de nudez e de masturbação estava levando à substituição das fantasias pelas atuações sexuais promíscuas, assim como ao uso maciço de drogas.

Entretanto, o problema maior passou a acontecer depois de 2010 com o advento dos smartphones, quando os adolescentes e até crianças – bem como os adultos – passaram a carregar a internet e as mídias sociais “no bolso”.

Estavam criadas as condições para estimular as adições à tecnologia e a dependência narcísica de receber likes e ser “olhado” pelo outro. Os mais frágeis, identificados e conduzidos pelos algoritmos, sucumbiram em razão de suas falhas narcísicas, passando a buscar o “amor” e a inclusão em comunidades virtuais extremamente tóxicas e perigosas.

A solidão foi substituída pela “inclusão” espúria em comunidades manipuladas por influencers sádicos, misóginos, muitas vezes perversos, racistas, antissemitas, induzindo jovens a atos violentos.

A violência, seja contra si mesmo ou contra o outro, aumentou exponencialmente. Temos assistido a uma verdadeira epidemia de automutilações, cyberbullying, atos infracionais, suicídios e depressões graves em adolescentes.

Conhecer esse novo mundo virtual por onde os adolescentes andaram sós durante muitos anos, expostos ao submundo, é importante não para se alarmar, mas para tomar medidas efetivas de cuidado e proteção com os nossos jovens.