Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre (SPPA)

ANO 24 • • Nº 45

ÓRGÃO OFICIAL DA SOCIEDADE PSICANALÍTICA DE PORTO ALEGRE

Porto Alegre | RS

Reflexões sobre os impactos da virtualidade em relação aos ritmos da vida humana

  • André, Lúcia e Berél apontam longa caminhada para o entendimento do impacto da virtualidade em nossas vidas

Os novos desafios impostos pela virtualidade aos seres humanos é o tema principal dessa edição do Jornal da Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre (SPPA). Foram ouvidos psicanalistas e um professor de filosofia para ajudar a refletir sobre esse movimento atualmente vivido pela humanidade.

Para a psicanalista e membro associado da SPPA Lúcia Thaler , “é instigante tentar compreender as mudanças de paradigma que a evolução tecnológica da internet e das mídias sociais vêm provocando, levando as experiências da globalização a níveis nunca imaginados”.

Paulo Berél Sukiennik, membro associado da SPPA, avalia que as mídias sociais afetam o ritmo da vida: “no nosso meio, o WhatsApp é o principal meio de comunicação, seguido pelo Instagram e Facebook, dependendo da faixa etária. A partir da adolescência, é raro quem não os utiliza além de outras vias para o mundo da virtualidade. Ficou prático e rápido se conectar com o mundo. Funciona como um jornal de tudo”.

Entretanto, ele destaca que “as mídias sociais trouxeram um ritmo impessoal às relações. Há uma exposição que pode comprometer a privacidade, pode criar dependência. É importante um equilíbrio entre o uso das mídias sociais e o presencial. As plataformas digitais criaram um novo espaço público (virtual)”.

Sobre os impactos das mídias sociais na educação, o professor e jornalista André Pares afirma: “é importante frisar que a educação tem seu próprio tempo, o ritmo dela é, ou seria no mínimo respeitoso que fosse, o de quem aprende. Aprender depende de uma série de fatores, como, por exemplo, a condição que encontra para realizar a aprendizagem, que se dá em um processo de relação”.

Para Lúcia, a evolução tecnológica trouxe enormes benefícios. No entanto, ela pondera que “o proveito ou prejuízo resultante das tecnologias, e das mídias sociais, consiste no uso feito delas. As coisas mudam de figura quando o uso da virtualidade serve a outro propósito: negar as nossas faltas e evitar ligações de proximidade e intimidade. Infelizmente, tais práticas se prestam muito a esses objetivos. O ser humano busca se sentir pleno, mas necessita amadurecer para tolerar limites e frustrações, pois nunca alcançará a sonhada completude”.

Ela se preocupa com o incremento do uso aditivo da internet e das mídias sociais, justamente porque facilita a negação das faltas, das frustrações e dos limites. “Observamos pessoas que não conseguem se separar do celular e do incessante click de ‘novidades’ ali. Acabam abduzidas para esse mundo virtual e se isolam de familiares e amigos. Na clínica, escutamos casais em que o uso abusivo do celular provoca o afastamento do parceiro, que se sente trocado por interesses aparentemente mais sedutores do que a intimidade entre eles. Crianças acabam isoladas dos pais pelo uso exagerado do celular tanto por eles quanto por elas mesmas”, constata.

Lúcia entende que isso funciona como uma defesa contra as verdadeiras relações de intimidade, “aquelas que são indispensáveis e enriquecedoras, mas que exigem algo em troca, que não são apenas gratificantes, não prometendo completude e satisfação infinitas.”

Berél lembra que “o espaço público era restrito a locais físicos onde as pessoas se reuniam para estarem juntas, perto umas das outras. Com as mídias sociais, esse espaço se expandiu para o ambiente on-line, fundando um novo tipo de relação social digital que pode ou não ter profundidade e autenticidade”.

Ele alerta para a necessidade de se estar atento às implicações éticas das interações nas redes sociais: “a fronteira entre o criativo, o lúdico e o tóxico é tênue nas mídias sociais, o que obriga a uma atenção redobrada”.

“Infelizmente, a internet vem incrementando aspectos narcisistas em muitos usuários, que necessitam estar sempre postando suas realizações ou aspectos banais do dia a dia”, analisa Lúcia. Para ela, “o ‘Posto, logo existo’, trocadilho a partir da frase de Descartes, ‘Penso, logo existo’, reflete a situação de pessoas que expõem a própria privacidade e postam ‘seus feitos’ nas mídias, aguardando as ‘curtidas’ da mesma forma que um dependente de drogas as utiliza para obter prazer”.

As mídias sociais não inventaram as adições e os excessos narcísicos, mas permitem levá-los às últimas consequências. “E isto não é força de expressão, pois encontramos realmente sites e aplicativos, na chamada deep web, que estimulam crimes como pedofilia, golpes e condutas autodestrutivas, entre as quais automutilações e inclusive suicídios, principalmente entre os jovens”, alerta Lúcia.

A psicanalista constata que a virtualidade também afetou os ritmos da vida na percepção da passagem do tempo. “Parece não existir mais tolerância à espera e digestão das experiências. As gratificações precisam ser permanentes, imediatas e estar ao alcance das mãos. Talvez seja por isso que se observam cada vez mais indivíduos se queixando de que o tempo está passando com muita rapidez, pois não há mais o necessário intervalo para elaborar sentimentos, pensamentos e vivências”.

Berél reconhece que são grandes os desafios impostos pela virtualidade aos relacionamentos. “Surge uma fronteira difícil entre os objetos possivelmente autísticos e os objetos criativos. Entre o lúdico e o tóxico. Não é fácil diferenciar por vezes. Em um mundo que luta entre a pulsão de vida e a patologia do vazio, esta pode estar se tornando uma questão fundamental da modernidade”, explica Berél. Para ele, “a virtualidade deve ajudar nesse propósito, a serviço da pulsão de vida. O problema é que se observa não ser algo tão óbvio assim na clínica”.

Para Lúcia, o principal desafio em relação à virtualidade é impedir a substituição das relações humanas pelas máquinas, utilizando os benefícios das tecnologias com parcimônia: “entendo que a tecnologia virtual chegou para ficar, e que seu uso consciente e limitado proporciona enormes ganhos”.

Relacionamentos são complexos por natureza, acredita Pares, e a virtualidade pode oferecer mais vantagens do que problemas. “Como o uso de qualquer instrumento ou substância, este também deve ser feito com moderação, sob pena do exagero tornar a vantagem um fardo. Contudo, é inegável que reuniões virtuais, por exemplo, podem resolver problemas de distância, mas não resolvem a saudade. Encontrar a justa medida segue sendo um grande desafio, ao qual não escapa o uso da internet”, reflete.

Reflexos da virtualidade
no ambiente escolar e no campo analítico

A virtualidade traz reflexos em toda a existência humana. No ambiente escolar, Pares pondera que “se a virtualidade está entendida como aquilo que não é real, no sentido de não ser concreta em relação à não presencialidade, não teríamos muitas novidades desde o advento da fotografia, do cinema e da televisão”.

Hoje, todos podem ser emissores e, assim, argumenta Pares, “os usos das transmissões são indiscriminados. Quem quiser publicar o que deseja pode fazer. O acesso a essas infinitas mensagens também passa a ser sem organização, sem filtro, sem controle social. A educação aparece novamente como bastião da salvação, em iniciativas [...] como os conteúdos obrigatórios de Educação Midiática e de Alfabetização para os Meios de Comunicação”.

Para ele, “em vários outros modelos educacionais possíveis a relação da educação com as mídias sociais não seria um problema e, talvez, ao contrário, fosse um benefício. Pares acredita que o problema na educação em relação ao uso da internet é muito mais a escola e o modo pelo qual ela escolhe trabalhar com a educação e tratar os estudantes”.

Pares explica que “enquanto isso não acontece, no caso brasileiro, o reflexo da virtualidade no ambiente escolar é o padecimento das consequências de uma não organização regulamentar como política pública da internet e de uma educação que não prepara para autonomia”.

Conforme Lúcia pondera, “o principal desafio é oferecer às crianças e jovens (e a muitos adultos também!) educação de qualidade, capaz de ensiná-los a utilizar as tecnologias virtuais de forma consciente”.

No campo analítico, Berél defende que são vários os reflexos da virtualidade. “Abriu-se um espaço enorme para fins terapêuticos, facilitando a formação de um setting mais flexível. Por outro lado, é discutido se é possível substituir o contato presencial entre analista e paciente.”

Segundo Berél, “em relação aos reflexos da virtualidade no campo analítico, lida-se com um paciente encharcado socialmente de virtualidade. Os objetos virtuais são parte do mundo interno, constituindo veículos para acesso associativo e transferencial, e devem ser acolhidos elasticamente na psicanálise contemporânea”.

Lúcia também vem observando esses reflexos em vários aspectos das sessões e do processo analítico [...]. Assim como Berél, ela sinaliza a possibilidade de realização da análise on-line: “há pacientes que, após a pandemia, mantiveram o atendimento virtual em algumas ou mesmo em todas as sessões”.

Apesar de reconhecer essas demandas, Lúcia defende que o virtual não pode ser equacionado ao real [...]. “A presença provoca emoções e fornece informações e interdições aos dois participantes: o corpo, o olhar, a respiração, a forma de se cumprimentarem, como se movimentam e gesticulam, como se estabelece o vínculo”, afirma.

Para Berél, a virtualidade ainda está sendo processada pela psicanálise, pela sociedade e pela própria tecnologia. “Existe um não saber para onde está se indo que é angustiante, mas também pertence ao jogo da vida. Como analistas, o desconhecido é nosso antigo conhecido”, sentencia.