Turbulências nas famílias
algumas considerações sobre a série da Netflix “Adolescência”

A família está presente de corpo, mas ausente de alma: eis um paradoxo da contemporaneidade.
A série “Adolescência” teve repercussão e audiência surpreendentes. É possível que isso tenha ocorrido porque as famílias estão atualmente perdidas sobre a forma como lidar com esse período do desenvolvimento, que, por natureza, é turbulento e impacta os vínculos familiares.
Em tempos de expansão tecnológica e instantaneidade nas comunicações, as exigências de lidar com as mudanças corporais e psíquicas, de estar em contato e de pertencer a um grupo constituem um desafio para o adolescente. Esse é o contexto em que se passa a história de Jamie e sua família.
Destaca-se o fato de que ela se apresenta como uma família típica, com seus desafios, questões e potencialidades. O pai age como provedor, a mãe se dedica aos cuidados domésticos e ambos os filhos estão inseridos em um contexto escolar.
Observando as particularidades de cada um, percebe-se que o pai aparenta estar sempre no limite da fúria, embora essa violência potencial não se concretize ao longo dos episódios. Ele valoriza e estimula no filho a força e a competitividade, parecendo cultuar a potência e superioridade masculina. A mãe é mostrada como passiva e submissa. A filha mais velha transparece viver as decepções e desafios da adolescência de forma mais integrada. Jamie, por sua vez, é mais frágil e suscetível à identificação com um ideal paterno de superioridade e força. Como não atinge esse ideal, acaba ficando inseguro e sofrendo bullying na escola. Seu enorme sofrimento não é percebido pela família, e sua estratégia passa a ser o refúgio no quarto e nas redes sociais. Os pais não notam que, dessa forma, Jamie tem acesso às mídias sociais e à deep web, que o incentivam ao ódio, à violência e à misoginia.
A solidão e os “fantasmas internos” de Jamie culminam em desespero, pois o contato intenso com as telas não responde às suas angústias, que gritam por compreensão. Sem caminho para pensar e sem espaço de acolhimento, ele é levado a um ato extremo, cometendo o assassinato de uma colega da escola.
Há uma cena final tocante, na qual os pais se questionam e choram, buscando justificativa ou compreensão para tamanha tragédia. Procuram, com muita tristeza, entender sua responsabilidade pelo desfecho devastador.
A série leva a pensar no quanto os pais, hoje em dia, assolados pelas exigências de um mundo de excessos e urgências, podem não perceber o sofrimento dos filhos e o quanto estes acabam sendo influenciados por meios virtuais, mesmo quando parecem estar “protegidos” em seus quartos. A família está presente de corpo, mas ausente de alma: eis um paradoxo da contemporaneidade.
É fundamental alimentar os vínculos familiares a partir da convivência, das trocas, do interesse pelo que se passa com o outro, das conversas, da disponibilidade emocional. Os avanços da comunicação tecnológica são facilitadores em muitos aspectos, mas as horas de compartilhamento em família são insubstituíveis.