Autora
Kátia Radke
Presidente da SPPA
Palavra da Presidente
A respeito do instigante tema abordado na presente edição do Jornal da SPPA, acredito que o século XXI marca o início de uma era caracterizada pela virtualidade como uma experiência cotidiana predominante. Vivemos um tempo permeado por tecnologias que não apenas reconfiguram os modos de comunicação, como também estabelecem parâmetros inéditos de convivência e, com isso, surgem novos paradigmas nas relações sociais e na subjetivação.
O contato afetivo — aquele fundamentado na presença, no olhar e nas trocas sensoriais — parece cada vez mais em descompasso com o ritmo acelerado das redes sociais nas relações contemporâneas. Por um lado, é inegável que a tecnologia encurta distâncias geográficas e possibilita conexões quando antes existiam ausência e silêncios. Por outro lado, paradoxalmente, ela também cria uma distância afetiva, um simulacro que confere uma certa ausência “disfarçada” de presença.
Assim, reflito sobre o risco de que o uso excessivo ou precoce da mediação digital enfraqueça — e às vezes até impeça — a profundidade dos vínculos humanos, transformando encontros em algo bidimensional, frequentemente desprovidos de afetos mais densos.
Como psicanalistas, sabemos da importância da presença do outro, uma presença "encarnada" através do olhar, do tom de voz, dos cheiros e dos ritmos que regulam as experiências emocionais. Por exemplo, as interações mediadas por telas não oferecem às crianças a vivência sensorial e afetiva necessária para a constituição de um self coeso. Nessas interações, não há o calor da pele, a prosódia e a cadência dos batimentos cardíacos que só um bom aconchego pode proporcionar.
Ao pensar nos adolescentes, aumenta a minha preocupação com o uso excessivo das redes sociais. A virtualidade cria um espaço sem leis, onde tudo parece possível. O ambiente fluido dissolve os limites entre o público e o privado, levando os jovens a um cenário que frequentemente opera no excesso, na exposição e no consumo. Sem uma bússola, essa travessia torna-se sempre mais arriscada.
Reconhecemos que a tecnologia é um recurso valioso e inevitável, mas seu uso exige atenção. Em tempos de conexão constante, talvez nosso maior desafio seja a reconexão com o essencial: com os vínculos afetivos que nos humanizam e com a presença dos laços que tecem a constituição psíquica do sujeito.
Falando sobre a importância desses vínculos, ainda estamos abalados com a recente perda do Dr. Isaac Pechansky, nosso ex-presidente, um grande analista com inúmeras publicações e contribuições científicas, além de um ser humano que fará muita falta entre nós. Na próxima edição, teremos espaço para homenageá-lo e refletir sobre o imenso legado que deixou.
Boa leitura a todos!