Autor
Zelig Libermann
Médico-psiquiatra e psicanalista. Analista didata da SPPA. Diretor do Instituto de Psicanálise da SPPA no período 2024-2025 Professor e Supervisor no Curso de Psicoterapia de Orientação Psicanalítica do Centro de Estudos Luís Guedes
Virtualidade e formação psicanalítica

Na era da internet, o debate em relação à formação psicanalítica nas modalidades presencial/on-line se torna cada vez mais relevante.
A pandemia de COVID-19 acelerou o processo de atendimento on-line, inclusive para os candidatos em formação psicanalítica. Passado esse período, as instituições psicanalíticas iniciaram um novo debate: deve-se preservar a tradição do encontro presencial como único recurso para o treinamento em psicanálise? E como seria o ensino da psicanálise se o contato pudesse ser inteiramente on-line?
Segundo os defensores da modalidade presencial, a psicanálise se desenvolveu com a compreensão das relações primitivas, envolvendo aspectos além do pensamento racional. Nesse sentido, a presença do corpo seria essencial para a criação do campo analítico entre paciente e analista, o qual envolve a mente ampliada do analista, isto é, seus sentimentos, reações corporais e sensoriais (olfato, audição, tato etc). Como seria desenvolver a mente ampliada do analista sem a presença do corpo?
A defesa do presencial envolve ainda a questão institucional: como manter o senso de pertencimento, de identidade com a instituição psicanalítica, nos estudantes de psicanálise que raramente, ou nunca, pisarão na sede de sua Sociedade, tendo em vista a distância?
Por outro lado, a defesa do on-line considera viável desenvolver os fatores sensoriais, notadamente, é claro, visão e audição, no contato através da tela, permitindo a criação do campo analítico possível. Do ponto de vista institucional, argumentam que a suposta ausência de identidade com a instituição seria compensada pela identificação com a psicanálise em locais remotos, beneficiando mais pessoas em sofrimento psíquico.
Em decorrência desse debate, a International Psychoanalytical Association (IPA) publicou recentemente uma revisão das diretrizes da formação analítica.
A revisão destes procedimentos preconiza a modalidade presencial como a forma standard de treinamento em psicanálise, ao mesmo tempo em que amplia a possibilidade do uso da tecnologia on-line, auxiliando os estudantes de psicanálise que residem em áreas mais distantes das Sociedades.
Coerente com a teoria psicanalítica, a qual busca analisar o mundo interno como meio de transformação do mundo externo, penso que a IPA visou manter o equilíbrio entre tradição e inovação, fator importante para o desenvolvimento e para a continuidade futura da psicanálise.