Autor
Cristiano Freitas Frank
Médico; Especialista em Psiquiatra da
Infância e Adolescência - HCPA/UFRGS;
Psicanalista - SPPA.
Virtualidade

A virtualidade, para ter uma relação ótima com o mundo, vai depender do reconhecimento que poderá receber
A palavra virtualidade contém significados que trazem uma luz diferente ao que o senso comum, a partir da internet e do digital, faz pensar. Apresento aqui um recorte do dicionário Aurélio:
Virtualidade – […] 1. Que existe como faculdade, porém sem exercício ou efeito atual.
2. Suscetível de se realizar; potencial.
3. Filos. Diz-se do que está predeterminado e contém todas as condições essenciais à sua realização.
A ideia do potencial remete a Aristóteles, que, em sua metafísica, trabalha a potência como um poder vir a ser. Uma semente é uma árvore em potência (virtualmente); um bloco de pedra tem em potência (virtualmente) uma escultura em seu interior. Além desses exemplos clássicos, é possível acrescentar: um bebê tem, virtualmente, em potência dentro de si, o adulto que irá se tornar.
A atualização da própria potência (o seu potencial) dependerá do contexto: para a semente, o meio ambiente; para a escultura, a criatividade e a técnica do escultor; para o bebê, o corpo e a vida da mãe, assim como o contexto familiar.
Então, a virtualidade, para ter uma relação ótima com o mundo, para expressar todo o seu potencial, para poder existir, vai depender do reconhecimento que poderá receber. As ideias ou capacidades em potencial precisam encontrar o meio ambiente adequado para se expressarem. Naquilo que nos toca particularmente, o desenvolvimento emocional de crianças e adolescentes, a presença cotidiana dos adultos, favorecendo espaços de conversação a respeito do que tem sido visitado no mundo virtual da internet, das demandas que ficam depositadas virtualmente na vida emocional, é fundamental para dar um destino criativo à virtualidade.
Alguns dos autores dedicados a pesquisar sobre o avanço da tecnologia computacional sinalizam para o potencial criativo da inter-relação resultante dos ‘mundos virtuais’ com o humano (Pierre Lévy, Michel Serres, Serge Tisseron). As gerações que já existiam antes da explosão da internet têm a tarefa de integrar de forma criativa, ou não, a diferença que surge — a vida intermediada —, praticamente em todos os seus níveis, a partir das tecnologias digitais.