Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre (SPPA)

ANO 23 • • Nº 44

ÓRGÃO OFICIAL DA SOCIEDADE PSICANALÍTICA DE PORTO ALEGRE

Porto Alegre | RS

Sexualidade(s): novos conhecimentos, novas interpretações

  • Para os entrevistados, as sexualidades são uma obra em construção, a depender da cultura de cada época

Como podemos abordar as contribuições da psicanálise sobre a sexualidade no mundo ocidental? Que novos conhecimentos estão sendo construídos a partir dessas realidades inéditas? Que ligações podem ser estabelecidas entre a construção da identidade como um todo e a questão da sexualidade, levando-se em conta a cultura atual?

Para ajudar a pensar sobre tais questões, convidamos o psicanalista Sérgio Lewkowicz, membro didata da SPPA e do Comitê de Estudos de Gênero e Diversidade Sexual da Associação Psicanalítica Internacional (IPA), e Maria da Graça Motta, psiquiatra, mestre em neurociências pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), psicanalista e membro efetivo da SPPA, além da ginecologista Carla Vanin, diretora médica do Hospital Santa Clara.

Lewkowicz salienta que o primeiro aspecto a ser destacado é falar sempre em sexualidades no plural. “As sexualidades são fluídas, móveis, mutantes, e não se sujeitam às classificações. Acreditávamos estar ancorados em estruturas sexuais estáveis, mas isso é mais fruto da cultura de uma época do que uma realidade do desenvolvimento”. Para ele, as sexualidades são cercadas de incertezas e mistérios, sendo difíceis de serem apreendidas pelas teorias. “Na verdade, é sempre uma obra em construção com o papel da cultura muito proeminente em cada época”, constata.

Maria da Graça observa que os psicanalistas têm a oportunidade de adquirir novos conhecimentos a partir da escuta dos pacientes nas mais variadas formas de viver suas identidades e sexualidades. “Essa escuta é uma fonte poderosa que estimula a nos desacomodar e questionar nossas premissas e teorias”, comenta. Ela aponta que, dentre os caminhos que encontrou para ampliar sua visão em relação às sexualidades, estão o estudo de psicanalistas por vezes subestimados no passado, tais como Karen Horney e Ernest Jones, os quais, já em 1924, questionavam em alguma medida a visão falocêntrica freudiana. A leitura de psicanalistas como Chodorow (1997), Dimen (2012), Fiorini (2019), Gherovici (2023) e Drescher e D’Ercole (2024) lhe é fundamental, assim como os estudos de psicobiologia, psicologia social, neurociências, antropologia e filosofia, entre outras. “A partir do encontro desses vértices, venho buscando questionar e amplificar minhas premissas, bem como a maneira através da qual posso entender a relação com meus pacientes e ter um novo olhar para o significado de identidade e sexualidade”, afirma a psicanalista.

“A sexualidade não pode ser universalizada e nem essencializada, muito menos normatizada, pois nossa compreensão deve ser sempre relativa àquela pessoa singular. Existem infinitas variações das apresentações sexuais. Ela é um conceito de difícil apreensão. Na verdade, precisamos encontrar uma nova forma de pensar a sexualidade”, enfatiza Lewkowicz.

A ginecologista Carla Vanin lembra que a sexualidade humana é um tema pouco explorado e repleto de tabus. “Tem sido desde sempre tema de discussão e questionamento. O mundo anda muito rápido e, atualmente, vivemos um turbilhão de mudanças em relação à sexualidade, tanto do ponto de vista psíquico como intelectual”, pondera. Segundo ela, quando pensamos em ‘novos conhecimentos’, precisamos lembrar que, hoje em dia, por exemplo, é possível ter diferentes tipos de orgasmo. Portanto, “como indivíduos e, principalmente, como profissionais da saúde, temos que questionar pré-conceitos e amadurecer os conhecimentos para melhor ouvir os relatos e questionamentos abrangendo a sexualidade para, somente assim, podermos entender e ajudar os pacientes”.

“Freud detectou com astúcia a sexualidade infantil e a importância da sexualidade na qualidade de vida das pessoas”, afirma Lewkowicz. Segundo ele, Freud tentou abarcar a complexidade da sexualidade através de suas notas de rodapé realizadas ao longo do tempo nos três ensaios sobre a teoria sexual. “Suas colocações enfatizavam o biológico como central na sexualidade e, hoje, sabemos que o biológico é apenas um dos componentes, sendo uma parte fundamental o aspecto psíquico (incluindo o cultural e o social). Especialmente no que se refere ao gênero, existe um afastamento importante do biológico”, explica. “Interessante notar que o gênero, no início, era o biológico, depois o mais importante eram as relações, a cultura e o psíquico, e, agora, voltamos para o biológico através da necessidade e importância das modificações corporais nas pessoas trans”, observa.

O psicanalista destaca que “a experiência de sexualidade é estabelecida totalmente fora da consciência: sempre nova, instável, surpreendente, excitante e cheia de enigmas a resolver. Nesse momento, encontra-se com os valores culturais, o inconsciente normativo, como descreve Nicolas Levzonas, autor que propõe um modelo de tradução das mensagens enigmáticas que leve em conta o gênero, a etnia, as classes sociais, a religião etc., considerando relações de poder e padrões culturais de opressão. Isso se processa através de um aprés-coup, um a posteriori, uma ressignificação das mensagens enigmáticas em contato com uma determinada cultura; seria o social colonizando o inconsciente”.

Citando Julio Moreno (2014), Lewkowicz lembra que não se pode encarar a sexualidade como a motivação inconsciente de todo ato humano, uma espécie de emanação da carne em relação à qual se opõe o simbólico e a cultura através da repressão. “A sexualidade emerge da interação do corpo com a regulamentação social da época. Aparece conforme a trama social que vivemos. Não é que primeiro aparece o desejo e depois a cultura e a lei, mas elas se apresentam ao mesmo tempo, em uma trama inseparável”, conclui.

Importante também pensar como a sociedade tem lidado com as transformações na área da sexualidade, considerando, por exemplo, a diversidade de gênero, a diversidade sexual e as mudanças em relação à feminilidade e masculinidade. Maria da Graça constata que, “no que diz respeito à sexualidade, como em várias outras realidades psicossociais, há uma polaridade, desde grupos extremamente homofóbicos, ultraconservadores misóginos, absolutamente inseridos numa cultura patriarcal, nos quais encontramos também atreladas manifestações racistas e crenças em eugenia, entre outras formas de exclusão do outro”. Por outro lado, ela observa que “acompanhamos uma evolução cultural na qual tem sido possível escutar a voz das diversas identidades, inclusive sexuais, de gênero e de orientação sexual. Teóricos acadêmicos pós-modernos passaram a desconstruir a noção de gênero como um imperativo cultural predefinido e atemporal. Na psicanálise, tem ocorrido uma tendência mais contemporânea de compreender o gênero como um idioma pessoal de múltiplos níveis e dinamicamente flexível (Bollas 1989). A psicanálise pós-moderna começou a mudar a pergunta de: ‘Gênero, o que é isso?’ para ‘Gênero, ele existe?’”, explica.

Lewkowicz cita Oren Gozlan ao descrever que “o gênero é um continente para nossas divisões internas, sendo que essas ansiedades se projetam para fora e encontram a estrutura binária de gênero, gerando conformidade ou não. As pessoas que não se conformam, os trans, mostram as nossas perdas e incertezas e, com isso, provocam ansiedade nos demais”. Ele lembra que, entre os psicanalistas, existe o grande desafio de enfrentar a contratransferência com os pacientes trans. Segundo Lewkowicz, “a psicanálise patologizou esses indivíduos, bem como todo o espectro do grupo LGBTQUIAP+. De psicóticos passaram a perversos e, agora, para imaturos. Essa tendência a normatizar tais pessoas foi e ainda é muito nociva para os pacientes e para a própria psicanálise”, afirma. “Como salienta Kristeva, quando a psicanálise não acompanha as mudanças sociopolíticas de sua época, ela perde sua autoridade social ou é como diz Cecarelli, usando Lacan: estar em sintonia com a subjetividade de sua época requer um trabalho constante de autoanálise/análise pessoal”, finaliza.

Carla avalia como bastante complexas as transformações na área da sexualidade, pois envolvem muitos preconceitos, tabus e estereótipos. “Por outro lado, é um assunto que tem apresentado uma maior valorização e entendimento da diversidade e da igualdade”, argumenta. Ela acrescenta que “trabalhar o entendimento do conceito de gênero é muito importante para definirmos os valores atribuídos a homens e mulheres, assim como as possíveis mudanças de comportamento resultantes desses valores”.

Segundo Carla, “para que a verdadeira inclusão aconteça, a diversidade de gênero e a sexualidade precisam ser vistas como fatores essenciais. Devemos lutar pela igualdade de oportunidades e nos levantarmos na defesa contra o preconceito, a violência, a segregação e a discriminação. Para que isso passe a ser realidade, ainda temos muito a discutir em relação aos movimentos LGBTQUIAP+ e feministas quando discutimos gênero e identidades sexuais”.

Sobre o início da vida sexual e seu impacto na vida psíquica

A psicanalista Maria da Graça lembra que o início da vida sexual ocorre nos primórdios do desenvolvimento, na infância e na adolescência, e cada etapa seguinte será construída a partir das vivências anteriores. “Uma relação ‘suficientemente boa’ com os primeiros objetos cuidadores, sem invasões ou traumas desenvolvimentais significativos, proporcionará uma melhor evolução da identidade, inclusive da identidade sexual do indivíduo. A facilitação da construção do ‘idioma pessoal’ proporciona o sentimento de coesão do self e de autoestima, qualquer que seja a identidade sexual, identidade de gênero ou orientação sexual”, explica.

“Devemos ter consciência de que todos aprendem muitas vezes com os exemplos e crianças são como esponjas, absorvem o que vivenciam, escutam e, principalmente, com os comportamentos que observam nos adultos. Portanto, é fundamental discutir de que forma desenvolvem a relação com o seu corpo e com o corpo do outro. Precisam ter, desde cedo, a noção do respeito e do limite”, explica a ginecologista Carla Vanin.

Ela acredita que, no passado, a sexualidade era vista como algo transgressor, até porque, ao longo do tempo, as práticas sexuais foram se separando do conceito de procriação. “Com a chegada dos anticoncepcionais na década de 60, o sexo tornou-se recreacional, transformando-se em fonte de prazer e autonomia. Maior liberdade e segurança, principalmente às mulheres, tornou-as mais donas de si e de seus corpos. Faz pensar em como o impacto desta mudança deve ter sido complicado e carregado de perversidade por parte dos preconceituosos. Promoveu a retirada do vínculo da sexualidade obrigatoriamente ao campo do casamento, tornando-se público, causando um descompasso e, com certeza, a possibilidade de novas relações, resultando em medo e até desprezo. Como em tudo na vida, o equilíbrio é muito importante. Neste caso, sexualidade com responsabilidade é o equilíbrio. Se este conceito conseguir ser adquirido, certamente o impacto psíquico de um relacionamento sexual é positivo”, conclui Carla.

Buscando olhar as ligações entre a construção da identidade como um todo e a questão da sexualidade, levando em conta nossa cultura atual, Maria da Graça destaca que “a sexualidade e a identidade são construídas a partir de um contexto mais ou menos conservador, abandonante, negligente, invasivo, de cuidado e de reconhecimento do sujeito. Todos eles originários do ponto de vista da relação com a família, cultura e período histórico. Somos, em grande medida, reflexo de nosso meio.”

A Organização Mundial da Saúde (OMS) entende a sexualidade como sendo influenciada pela interação de fatores biológicos, psicológicos, sociais, econômicos, políticos, culturais, legais, históricos, religiosos e espirituais, como uma “...energia que motiva a encontrar o amor, contato e intimidade, e que se expressa na forma de sentir, nos movimentos das pessoas e em como estas se tocam e são tocadas”. Trazendo esse conceito, Carla reconhece a sexualidade como um fenômeno amplo e complexo. “Possui traços da cultura das diferentes populações, que varia enormemente como consequência dos seus vários hábitos. É fortemente influenciada por diversos aspectos, como orientação e identidade sexual, papéis dos gêneros e prática do ato sexual. Ligada aos conceitos religiosos, costumes e intelectualidade, o conceito de saúde sexual remete ao direito à experiência de maneira prazerosa, segura e saudável. Assim, o comprometimento da saúde sexual pode trazer impactos importantes à saúde física e mental dos indivíduos. As infecções sexualmente transmissíveis (IST) e a possibilidade de uma gestação não desejada expõem a população a inúmeros estressores, que podem levar aos sintomas depressivos e à ansiedade”, constata a médica.

Para Lewkowicz, nos defrontamos com uma ruptura de paradigma na psicanálise, o paradigma da diferença sexual binária, e com a turbulência que isto provoca. “Como salienta Mariana Pombo, está sendo criada, de forma lenta e coletiva, uma nova epistemologia para a psicanálise, que passa pela transição ou mutação dos analistas. Precisamos pensar a psicanálise como historicamente situada, mas mutável conforme a época e a cultura em que está inserida. E é urgente, é uma questão de vida ou de morte para muitas pessoas”, sentencia.